Pedagogia do Palhaço


14/06/2006


Quarta, 14 Junho 2006 23:54:39
 

Por Fernando Vieira

A unidade Adoniran Barbosa, do Complexo Vila Maria da Febem, em São Paulo, aposta em aulas de circo como ferramenta de ressocialização de seus internos, quase todos maiores de idade e reincidentes graves. Os resultados são positivos. O espetáculo tem nome sugestivo: 'Circo du Sô Léo', numa alusão ao Cirque du Soleil, um dos mais famosos do mundo.

fotos de Milton Mansilha

O palhaço Creitin, o professor Marco Guerra e o palhaço Sô Léo (de óculos)

Um olhar sério, concentrado. Olhos arregalados, fixos e direcionados à imagem refletida no pequeno espelho da caixa. O rosto começa a ser coberto de maquiagem. Gestos lentos e cuidadosos. Às vezes trêmulos, aparentemente receosos, que denotam pouca prática. A pintura vai desfigurando a seriedade, colorindo o rosto com um sorriso. Lábios largos desenhados sobre a pele.

Em pouco tempo, veste a máscara e despe-se de vaidades. Aceitar a transformação do corpo em motivo de piadas, de gargalhadas, é um desafio. "É preciso ter um pouco de coragem", diz de forma modesta o aprendiz Cleiton Gomes de Jesus, de 18 anos. Mas a tarefa, que não é fácil, torna-se mais difícil neste picadeiro, onde aprende, ensaia e se apresenta. Senhoras e senhores, o palhaço Creitin.


O rapaz é um dos 116 internos da unidade Adoniran Barbosa, do Complexo Vila Maria da Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem), destinada a abrigar adolescentes reincidentes graves. A maioria já atingiu a maioridade.

Escrito por Marco Guerra às 22h56
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Quarta, 14 Junho 2006 23:42:30
 

A Febem apresenta o circo Du So Leu


Os internos da unidade são, na sua maioria, maiores de idade e reincidentes graves. Entre eles e a rua, um rigoroso esquema de segurança e cinco portas de ferro. Para os que aderiram ao 'Circo du Sô Léo', o trabalho de ressocialização é uma esperança.

Nesse ambiente, sete internos desafiam a si próprios e participam de um curso no mínimo inusitado: o de palhaço. "Sem dúvida é preciso muita coragem para se vestir de palhaço e fazer uma apresentação para uma platéia de mais de 100 adolescentes, neste lugar", admite Cleiton. Afinal, o código para ser aceito e respeitado pelo grupo confinado na unidade nada tem de engraçado. É, sim, perverso: ser ladrão e assumir a mácula perante os demais. Um título de nobreza às avessas.

Meio que por acaso, a oficina de palhaço obteve permissão para entrar na fundação. Sua missão: ressocializar um grupo de jovens estigmatizados e apostar no sorriso como ferramenta de combate à violência.

O trabalho começou em agosto do ano passado nas unidades Uirapuru e Adoniran Barbosa, ambas no Complexo Vila Maria. O curso original era de teatro, mas a proposta não vingou junto aos internos. "Ninguém participava do teatro, não havia nenhum sinal de interesse. Parece que existe um certo preconceito com o teatro. Então, parti para o plano B", conta Marco Guerra, arte-educador do Instituto Mensageiros, entidade não-governamental que atua em parceria com a Febem no desenvolvimento de atividades culturais com os internos.

DÚVIDAS

Veio então a idéia de levar a oficina de palhaço – desenvolvida por Guerra fora da instituição – para o intra muros da Febem. No início, dúvidas. Como garantir o sucesso da iniciativa num ambiente isolado por mais de cinco portões de ferro e povoado por gente de poucos sorrisos? "Não sabia se iam aceitar a idéia. Se iam se interessar por fazer alguém rir ou se iam achar tudo uma palhaçada, no sentido negativo". Para quebrar possíveis preconceitos e resistências, explicou então sua proposta à rapaziada (forma de tratamento utilizada entre os internos – e para falar sobre eles), baseada num trabalho sério e respeitoso.

PEDAGOGIA

Guerra disse que seu curso pretende ir além do aprendizado de técnicas circenses. Trata-se de uma linha de trabalho batizada por ele de "Pedagogia do Palhaço" e pela qual busca reconhecimento.

"O palhaço não é um personagem. É um arquétipo presente em todas as pessoas. É, portanto, a busca de um segundo eu, sem malícia e o mais próximo do ideal de pureza, capaz de trocar tudo por um sorriso, pela felicidade".

Tudo esclarecido, Guerra teve de aguardar a aprovação dos internos. A primeira impressão é de que a direção pouco ou nada interfere nas decisões que definem os rumos da rotina interna da unidade. "A gente foi com a cara dele (do professor). Entendemos que ele queria ajudar e não ofender", diz um dos internos.

Para se ter uma idéia do grau de influência dos internos sobre a instituição, basta dizer que praticamente tudo passa pelo crivo deles. A reportagem só entrou na unidade porque os internos assim decidiram. E mais: determinaram o local em que as fotos seriam feitas e até o momento em que os aprendizes de palhaço deveriam se produzir.

EM CENA, SÔ LÉO

"Tira isso da cara", mandou um rapaz, quando o interno Anderson Martins, de 19 anos, se preparava para encarnar o palhaço Sô Léo, companheiro das palhaçadas de Creitin.

Minutos depois, a contra-ordem. Anderson já poderia se produzir e colocar no nariz seu óculos enorme. Mas nem tudo estava resolvido: uma reunião extraordinária é convocada e todos os internos se dirigem para um canto do pátio. Vão deliberar sobre uma apresentação fora de hora (e a pedido da reportagem) de Creitin e Sô Léo – e só deles dois. Os outros cinco aprendizes ficariam de fora.

Embora aparentemente democrática, a decisão é tomada por um único interno, conhecido como Voz. Os demais obedecem, conta um funcionário.

Essa tensão é encarada com certa naturalidade pelos dois palhaços que, acompanhados do professor, iniciam a apresentação. Encarnado em seu personagem, Anderson anuncia o espetáculo.

"Respeitável público, começa agora o Circo du Sô Léo!"

O nome, uma sugestiva alusão ao maior e mais fashion circo do mundo, o Cirque du Soleil, seria, contudo, produto de um feliz acaso. De uma combinação sonora, disseram.

Aos poucos, os adolescentes que compõem a platéia vão se soltando e soltando gargalhadas diante dos tropicões e do talento inegável dos dois rapazes. A função durou aproximadamente quinze minutos, uma amostra do sarau realizado toda última terça-feira do mês na Adoniran Barbosa.

RECONHECIMENTO

No final do espetáculo, os palhaços receberam as palmas e o reconhecimento do público. O 'Circo du Sô Léo' é aclamado. Vitorioso, Creitin diz que é fácil despertar um sorriso. "As pessoas estão muito acostumadas com a rotina. Basta uma coisa diferente para fazê-las sorrir". Quando perguntado se é mais fácil fazer sorrir ou causar medo, a resposta vem depois de uma breve pausa. "Se você tem uma arma, é mais fácil causar medo. Mas só há prazer em fazer sorrir. Sorriso é retribuição. E isso o crime não te dá".

Já em sua terceira e última internação, num total de três anos e cinco meses, e aguardando liberação judicial para deixar a Febem, Creitin vê na oficina de palhaço uma oportunidade de trabalho do lado de fora, um bico temporário para o ingresso na faculdade de artes cênicas que pretende cursar. Espera que o aprendizado dos tropeços artísticos o ajudem a impedir os tropeços da vida real.

Numa linha semelhante de trabalho educativo, adolescentes do Internato Vila Conceição, da Febem, exibiram ontem o curta metragem "Quem Rouba Sempre Perde". O filme foi produzido por eles, ao longo de 16 dias, durante a oficina cultural de audiovisual "Nosso Conto na Tela".

Escrito por Marco Guerra às 22h45
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