Pedagogia do Palhaço


08/04/2006


Palhaço
anônimo italiano

Quando eu era jovem, eu pensava que com a arte seria possível mudar o mundo.

Eu buscava constantemente um espetáculo que pudesse despertar no coração do público uma esperança.

Eu queria mostrar uma maneira diferente de viver, com mais amizade, criatividade, sem a obrigação de perseguir o dinheiro e o poder. Ilusão fútil que eu nunca consegui alcançar. Não só a revolução não chegou, como as pessoas se tornaram cada vez mais loucas e materialistas.

Quando eu me dei conta disto eu vivi momentos difíceis pensando, pensando inclusive que minha vida era um fracasso e que todo esforço era inútil.

Mas um dia eu tive uma revelação: se não se pode mudar o mundo, pelo menos é possível mudar a si mesmo, encontrar algo em seu coração, um desejo, uma necessidade e entregar-se totalmente a ele, sem olhar para trás. Isso não é para a sociedade ou para os outros, não, é para você mesmo.

E eu fazendo esse palhaço que eu sou, eu encontrei essa coisa. Provocar, burlar e fazer o público rir. Isso era tudo o que eu buscava em minha vida. Por certo eu não mudava o mundo, mas os palhaços nunca mudaram o mundo, passam o tempo tentando sem nunca conseguir, por isso são palhaços.

Os palhaços gostam do fracasso e das ações ineficazes, são perdedores alegres e isto é a verdadeira força que têm, nunca se cansam de perder. Desfrutam de cada fracasso e voltam em seguida a fracassar de novo, diluindo assim as certezas das pessoas sérias e que nunca duvidam.

Então, esse sangue que pareço ter na minha cabeça, esse sangue que tenho sobre a minha camisa, esse sangue que tenho no meu coração, esse sangue que está todo em mim é tão patético e inútil em seu simbolismo porque é sangue de um palhaço. Um sangue que não vem de uma grande luta ou em nome de uma causa heróica. É sangue de brincadeira, ao mesmo tempo verdadeiro e pouco importante.

Escrito por Marco Guerra às 00h13
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07/04/2006


Os novos talentos da palhaçada

As aulas de circo fazem sucesso há seis meses entre os internos da Febem Vila Maria

Moacir Assunção
VILA MARIA

A figura simplória de um palhaço, o mais tradicional dos personagens circenses, pode ajudar a trazer mais qualidade de vida e tranqüilidade, além de incutir noções de respeito ao outro, a jovens internados na Fundação Estadual do Bem Estar do Menor. O trabalho foi iniciado há um ano e meio na unidade Vila Maria e levado também para a Unidade de Semi-Liberdade da Febem do Brás . Há seis meses, os jovens que cometeram delitos leves - e, por isso, podem sair da unidade para ir à escola e visitar os pais nos fins de semana - estão tendo aulas de palhaço, malabarismo, acrobacia e teatro.

Criador do que chama de "pedagogia do palhaço", o ator profissional Marcos Guerra, de 34 anos, passa aos jovens noções de tudo que aprendeu na vida. As sessões, que batizou de aula-espetáculo, incluem exercícios de perna-de-pau e muitas conversas sobre cidadania e direitos humanos. "O arquétipo do palhaço é o da pureza. Nas nossas conversas, falo sobre o alimento da alma de que todos precisam e quebro essa idéia materialista segundo a qual só é gente quem tem tênis ou bonés novos."

Assim, o ator vai construindo visões diferenciadas do mundo, centradas na solidariedade e no respeito mútuo, além da idéia de não-violência. Vários dos palhaços de sua companhia chegaram a apresentar-se na Bienal do Livro, recentemente encerrada, e até no Museu da Imagem e do Som (MIS), com ganhos para auto-estima e qualidade de vida. Além da unidade do Brás, Guerra também dá aulas nas Febens do Tatuapé e da Vila Maria.

BIENAL

Os meninos, ao que parece, gostam da aula. "Foi muito bom fazer a apresentação na Bienal. A gente estava com um pouco de vergonha, mas melhoramos depois e até um homem veio dar os parabéns", conta, feliz, um dos meninos, de 15 anos. Outro, de 13, pretende profissionalizar-se na área teatral. Até já fez várias apresentações, uma com um texto de autoria de Ana Clara Machado, que conta a história da visão de um boi e um burro que estavam na manjedoura antes da vinda de Jesus Cristo.

"Acho que devemos trazê-los (os jovens) para uma realidade mais saudável e não ser influenciados por eles. Já vi muitos funcionários usarem as gírias deles e sou contra isso, porque demonstra que estão nos influenciando, quando deveria ser o contrário", diz o professor. Um dos meninos, Marcos Aurélio, se tornou o palhaço Saidinha. O apelido foi tirado da gíria que significa o dia da libertação da Febem e a volta para casa. Outro garoto, também já libertado, voltou à unidade para retomar as aulas de palhaço.

(Fonte: O Estado de São Paulo - Zona Norte - on line - sexta-feira, 24 de março de 2006)

Escrito por Marco Guerra às 23h38
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05/04/2006


 O querido palhaço carequinha...

                                                         Morreu na madrugada do dia 05 de abril

                                                          É... hoje tem marmelada no céu.

Escrito por Marco Guerra às 22h50
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04/04/2006


Notícias

Arte circense: uma nova ferramenta de ressocialização na Vila Maria

Por Assessoria de Imprensa, em 04/04/06 18:58

Internos da oficina de palhaço mostram que a alegria pode ser uma boa ferramenta para ressocialização

Parece palhaçada, mas não é. Desde janeiro de 2006, a unidade de internação Adoniran Barbosa, do Complexo Vila Maria, desenvolve um projeto inusitado junto aos internos da instituição: uma oficina de palhaço, composta por dez jovens reincidentes que manifestaram interesse em participar de atividades educativas voltadas à arte circense.

"A iniciativa estimula a técnica de buscar um segundo eu, um ser de pureza, sem malícia, que troca tudo por um sorriso", explica o ator e palhaço, Marco Guerra, reponsável pelo projeto, batizado de “Pedagogia do Palhaço”.  Ele explica que foi contratado, à princípio, para desenvolver um oficina de teatro. Porém, ele teve que usar de outros métodos para chamar a atenção dos jovens. “Comecei com o curso de teatro e percebi que eles não se interessaram tanto. Ai, usei o plano B, que era a oficina de palhaço”, conta.

Foto mostra uma das performances  desenvolvidas por Guerra

Guerra é arte-educador da ONG Instituto Mensageiros, entidade contratada pela Diretoria de Área de Arte e Cultura (Dacult), entidade responsável no desenvolvimento das atividades culturais na Fundação.  “Nunca imaginei que a oficina de palhaço ia dar certo", comenta. "Eu pensava: jovens da Febem tentando fazer alguém rir!”, se questionava. “Deu tão certo que, a partir de então, a cada mês, estamos realizando um sarau na unidade”, conta orgulhoso.

O professor ainda revela que já existe um grande palhaço entre os internos. É o palhaço Creitin, de 17 anos. “Gostei tanto que pretendo trabalhar profissionalmente”, confessa o jovem C.W, que está prestes a ser desinternado e deseja dar continuidade a atividade, que começou como uma grande palhaçada.

Escrito por Marco Guerra às 23h27
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